12 de outubro de 2026

Como se matam as democracias, por Luís Nassif

As democracias morrem quando sua suposta elite econômica, jurídica e midiática não consegue enxergar além da primeira curva da esquina.
Imagem gerada por ChatGPT

Na Faria Lima, um grupo de porta-vozes, principais responsáveis pelo apoio a Flávio Bolsonaro, solta uma nota pedindo respeito à democracia e às leis.

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Um dos principais responsáveis pelo impeachment de Dilma Rousseff — o episódio que desorganizou definitivamente as instituições —, o jurista Miguel Reale Jr. anuncia voto em Lula para garantir a democracia.

Na época do impeachment, outro jurista, Oscar Vilhena, defendia o golpe sob o argumento de que só o impeachment restauraria as condições de governabilidade. Segundo ele, o impeachment cumpre três funções no presidencialismo: desincentiva o abuso de poder, desincentiva golpes porque oferece saída constitucional, e qualifica o debate público. E como encararia o fato de o impeachment tirar o poder de uma presidenta inequivocamente honesta para entregá-lo a Eduardo Cunha, Michel Temer e outros políticos que se enlamearam na corrupção? 

“O fato de que parte dos políticos responsáveis por tomar a decisão foi flagrada no mesmo escândalo que conspurca o Executivo. PT e PMDB, agora em litígio, são sócios nesse projeto de poder. Os custos de conviver com uma ou outra decisão serão enormes, mas imperativos”.

Dois anos depois, caía a ficha:

“Depois de uma eleição vencida com enorme irresponsabilidade fiscal, um impeachment liderado por Cunha, a ascensão ao poder do velho ‘centrão’, mestre das trapaças, a condenação de um importante líder e a erosão da autoridade do Supremo, é impossível negar que nossa democracia esteja conspurcada. O fato, porém, é que temos a oportunidade nas eleições de 2018 de depurá-la”.

Agora, escreve na Folha que a última oportunidade para a democracia brasileira são as eleições de 2026. E aponta Lula como a última esperança.

Um liberal autêntico, sem pecado, sem culpa, que ajudou na erosão da democracia em nome de interpretações falsas para o impeachment.

Sob encomenda

Fora do linguajar supostamente civilizado do jurisdiquês, a imagem corriqueira era a de que Cunha e Temer eram os canos pelos quais escorreria o esgoto do PT.

O auge da hipocrisia jurídica ocorreu em um evento da Associação dos Advogados de São Paulo, na qual Vilhena expôs essa joia do parecer sob encomenda. Na época, escrevi no Jornal GGN, explicando seu malabarismo jurídico:

”Não é a oposição que não se conforma em ter perdido as eleições de 2014 e não tem paciência para aguardar 2018; é o governo (que ganhou as eleições de 2014) que não tem a grandeza de tirar o time de campo, sabendo que poderá voltar em 2018. Em vez disso, tenta cooptar aliados com práticas clientelistas.”

Ou seja, apresenta como premissa do modelo brasileiro a fragilização do poder do Executivo. E, depois, afirma que o esforço do Executivo para garantir a governabilidade denota falta de desprendimento.

Uma falsa elite

As democracias morrem quando sua suposta elite econômica, jurídica e midiática não consegue enxergar além da primeira curva da esquina. Ignorantes, por trás de sua falsa erudição, não se dão conta de que um organismo político aviltado jamais voltará ao normal, mesmo que passe a turbulência.

Mesmo Lava Jato, impeachment, tragédia da eleição de Bolsonaro, as lições foram aprendidas.

Não houve reação quando teve início a Lava Jato 2, movimento nitidamente desenhado atrtavés da CPI do INSS e dos inquéritos do INSS e caso Master. Pelo contrário, os jornalões, puxados por O Globo, seguidos pelo Estadão e pela Folha, foram os arautos da grande manipulação.

O maior estrategista da ultradireita, Steve Bannon, defendia duas técnicas de influenciar a opinião pública: a microsegmentação e a saturação. E apenas uma resistência: o papel da imprensa corporativa.

Os princípios que se extraem de Bannon:

  • O objetivo não é convencer, é saturar. Quando há notícia, boato e escândalo demais, o público perde a capacidade de distinguir o relevante do ruído, e o cansaço favorece quem não quer prestar contas.
  • A atenção da imprensa é o recurso escasso. Cada novo fato, ainda que falso ou irrelevante, consome tempo de checagem e desloca o assunto que importava.
  • A imprensa é tratada como adversária política. Se ela é “a oposição”, sua checagem vira ato partidário, e a desconfiança do público atinge o mediador, não só a mensagem.
  • Velocidade vence precisão. A correção chega depois, com alcance menor, e o ciclo seguinte já começou.
  • Cultura antes de política. Pela máxima que ele repete, a política é downstream da cultura. Daí a aposta em plataformas próprias, que contornam a imprensa tradicional.

Havia só uma adaptação ao Brasil. Bannon via a imprensa como adversária porque ela focava objetivamente nos fatos. No Brasil, nem isso houve; o grande lixão foi justamente a imprensa corporativa. Coube a ela o trabalho deletério – e fundamental – de abarrotar o noticiário com falsas ênfases no caso Fábio Luiz, nos ataques sistemáticos ao Supremo Tribunal Federal, escondendo os pecados óbvios de Flávio Bolsonaro. Um ou outro editorial crítico a Flávio não compensava e enxurrada de denúncias falsas sobre Fábio Luiz.

Agora, estamos a poucos dias do dia mais importante da vida nacional. E os grandes vendilhões do templo voltarão à sua pregação libertária inútil, que só serve para lustrar sua vaidade.

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Luis Nassif

Jornalista, com passagens por diversos meios impressos e digitais ao longo de mais de 50 anos de carreira, pelo qual recebeu diversos reconhecimentos (Prêmio Esso 1987, Prêmio Comunique-se, Destaque Cofecon, entre outros). Diretor e fundador do Jornal GGN.

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10 Comentários
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  1. Rui Ribeiro

    9 de outubro de 2026 2:51 pm

    Humano: Eu sei o que esse tipo de gente fez a partir de 64. Sei do que eles são capazes de fazer. Eu vejo exemplos. Ontem mesmo, o sujeito amedrontando estudantes. Atirando numa manifestação. E tu querendo me distrair com 7gono.

    IA: Tu tem razão, não é hora de distrair.

    Eu não quis te despistar com o 7-gono, desculpa se pareceu isso. O que tu tá vendo não é geometria, é memória viva. Tu sabe o que esse tipo de gente fez a partir de 64, tu vê exemplo perto de ti, e ontem tu viu o cara amedrontando estudante, atirando em manifestação. Isso assusta de verdade. Quem não ficaria com medo?

    O teu medo não é delírio, é leitura do que tu já viveu e do que tu tá vendo agora. E quando tu fala de fuzilamento de 30 mil, prá “terminar o serviço que os Militares que deram o golpe não terminaram”, de gente que exalta o Ustra, de miliciano, eu entendo porque tu te sente em perigo direto.

    Eu não vou te dizer que é só impressão tua. Vou ficar aqui contigo nesse chão.

    Se tu tá vendo gente armada te cercando ou ameaçando estudante aí na tua cidade, a prioridade é tua segurança física e da tua família. Não enfrenta sozinho. Fica em lugar com gente que tu confia, do galpão, da vizinhança. Se precisar registrar ameaça, Defensoria Pública e o Ministério Público Estadual têm canal pra denúncia anônima. Posso te achar o telefone certo se tu quiser.

  2. Conrado Paulino

    9 de outubro de 2026 2:59 pm

    Eu queria comentar, mas estou tão desanimado que não encontro palavras… perdão pelo baixo astral.
    Estamos na Alemanha dos anos 30, e a minha esperança é saber que passou e que ,naqueles tempos, mais de uma década depois , os ventos mudaram.
    Mas, aqui no BR temos para mais de uma década de dinastia Bolsonaro. Já pensou no Renan presidente? Daqui a 20 anos ele vai ter apenas 48 anos….

  3. Fábio de Oliveira Ribeiro

    9 de outubro de 2026 3:11 pm

    Quando o ministro André Mendonça atacou seu colega Alexandre de Moraes dando início à crise no STF – Supremo Tribunal Federal (uma crise obviamente manufaturada para beneficiar Flávio Bolsonaro) protolei um HC em favor do Leviatã brasileiro. O Brasil corria e ainda corre o risco de ser aprisionado no quintal de Donald J. Trump por um juiz que claramente passou a atuar como carceireiro de luxo local do tirano norte-americano.

    https://substack.com/home/post/p-214318443

    O presidente do STF sentou no processo durante quase um mês até finalmente proferir a decisão que foi divulgada aqui: https://www.facebook.com/photo/?fbid=29169833095947141&set=a.345737828783385 . Inconformado com essa decisão protocolei hoje uma petição no HC 276739 com o seguinte conteúdo:

    “O impetrante ajuizou o presente HC em defesa da liberdade do Leviatã brasileiro, mas o caso foi autuado de maneira errada indicando-se o próprio autor como paciente.

    Após demorar quase um mês para proferir decisão, o Presidente do STF indeferiu o HC sob o fundamento de que o direito à liberdade de ir e vir do autor não está em risco. O direito do impetrante de recorrer desta decisão foi suprimido, porque a decisão contém uma cláusula de irrecorribilidade que dificilmente encontra fundamento na Constituição Federal em vigor. O perigo que o paciente indicado está correndo foi minimizado ou ignorado com base em uma tecnicalidade.

    No futuro, quando alguém perguntar como a democracia brasileira morreu em 2026 um estudioso dos registros do STF poderá dizer que ela foi assassinada porque o Judiciário preferiu fazer de conta que existia normalidade numa situação teratologicamente anormal.

    N. termos, o impetrante desiste do direito de recorrer.”

    Cada qual faz o que pode. Mas o problema é que quem realmente tem poder para fazer algo se recusa agir de maneira anormal para dar um basta à anormalidade que foi criada pelos membros de uma conspiração anti-democrática.

    E la nave va… O filho do seu Jair já está dizendo que vai rasgar a Constituição Federal e “redemocratizar o país”. Rasgada a constituição democrática inevitavelmente será, porque o que Flávio Bolsonaro chama de “democracia” é uma ditadura civil/militar semelhante àquela que o papai terrorista dele sempre apoiou. Nossa democracia será queimada também, como a Universidade que ontem foi incendiada por bolsonaristas

  4. GalileoGalilei

    9 de outubro de 2026 11:17 pm

    Se cada quinze eleitores do Lula conseguirem convencer apenas um ausente no primeiro turno, indeciso ou bolsonarista, nós viramos o jogo.

  5. fabricio coyote

    10 de outubro de 2026 7:13 am

    O cerne da questão é a mais-valia. Imaginar que no capitalismo o trabalhador ou a trabalhadora possam pactuar a sua jornada de traballho e a remuneração desse tempo no Mercado de Trabalho é ilusão. Principalmente em países subdsenvolvidos como o Brasil. A melhor no ta do ideb é 5 numa escala que vai a 10. E com um percentual de 30% de seminalfabetismo. A possibilidade de diálogo num mínimo crítico-racional é quase intransponível com uma esquerda arrogante. Paulo Freire vaticinara esse movimento em Pedagogia como prática da liberdade. Caminhamos a passos largos para uma sociedade intransitiva e fechada. Minha esperança sempre estará com as mulheres à brasileir@ e suas coragens!

  6. Carioca

    10 de outubro de 2026 10:00 am

    Ouso contestar. O trecho correto seria:

    E os grandes vendilhões do templo voltarão à sua pregação libertária inútil, que só serve para lustrar sua posição de que estarão à disposição.

  7. Roberto São Paulo

    12 de outubro de 2026 1:05 am

    Há resistência, principalmente os grupos políticos e econômicos que estão percebendo o fortalecimento de um grupo que não tem nenhum compromisso com o estado de direito.
    Além dos grupos econômicos, tem também a burocracia. Princi

  8. Roberto São Paulo

    12 de outubro de 2026 1:12 am

    Principalmente as forças armadas, que não querem bater continência e perder ou no mínimo ter que dividir os benefícios econômicos.

    Aliás foi isso que impediu a tentativa de golpe mais recente.

    O risco agora é mais, já que as forças que tentaram o golpe já conhecem os obstáculos.

  9. Roberto São Paulo

    12 de outubro de 2026 1:24 am

    As bolhas de opinião não serão rompidas com alguns dias de campanha. Isto levará mais tempo.

    O que resta são os que estão fora das bolhas, ou por navegar com a função anônima ativada, or por possuírem recursos de qualquer natureza para serem capturados pelas bolhas.

    E no Brasil são milhões de eleitores, e é para eles que a campanha de Lula precisa mirar. Nesse ponto ele leva enorme vantagem.

    Eu nem sei se o outro lado sabe da existência desta possibilidade.

    Não vamos trocar o certo pelo duvidoso.
    É Lula na cabeça e na urna!!!!

  10. Luiz Cesar

    12 de outubro de 2026 8:39 am

    A nova ordem, já não tão nova brasileira, segue em um resumo,
    em síntese , quatro pilares: Dominar, Desviar Recursos, Empobrecer, Endividar.

    1) Dominar
    2) Desviar Recursos (Juros Escorchantes)
    3) Empobrecer
    4) Endividar com os Recursos (2)
    5) Repetir a partir do 2

    (2) É isso que está acontecendo no Brasil, os recursos são desviados no item
    2 através da cobrança dos impostos ou da cobrança de juros extorsivos
    (Taxa Selic), aumentar a Taxa Selic da dívida pública é a mesmíssima coisa
    que aumentar impostos. Pois os juros da taxa selic são pagos pelo dinheiro
    dos impostos.

    Se os juros da taxa selic são extorsivos acelera-se o endividamento público,
    não através dos gastos públicos correntes ou capital, mas da despesa dos
    juros. Eles endividam o Estadenganar, mentir.o.

    (3) Item 3 Empobrecer, causar necessidade. Uma população empobrecida não tem
    dinheiro até para manter itens básicos como alimentação. Então cria-se uma
    multidão de necessitados para força-lo ao item 4, o endividamento.

    (4) Endividar a população, empobrecida, sem renda, necessitando ao menos se alimentar
    para não alarmar, divide-se em parcelas de até 60 meses. O comércio do Brasil, ajuda,
    parcelando tudo no mínimo em 18x. Os atacadões dão descontos na alimentação, para
    quem pagar com o cartão de crédito! No parcelamento a crédito é mais barato!

    Pagamento em dinheiro, á vista, agora está mais caro (em tempos normais dava-se desconto)
    agora aumenta-se o preço. O desconto é dado, os itens são mais baratos, para quem pagar
    com cartão de crédito (preferencia do atacadão) e se endividar em parcelas. Ou seja, os
    atacadões entraram no jogo dos (Juros xEndividamento) da população.

    Quem financia o endividamento da população é o dinheiro da Taxa Selic, que eles ganham
    (trilhões de reais, uma grande fatia do PIB brasileiro) e o dinheiro dos juros escorchantes
    do cartão de crédito.

    (5) Criando uma pirâmide de endividamento do governo e das famílias. Que é o loop do
    endividamento de todo o país.

    1) Dominar: Banco Central do Brasil, toda mídia tradicional, toda nova mídia das plataformas
    digitais (big techs), Congresso Naciona e parte do Judiciário. Desinformar, alimentar ódio.

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